quarta-feira, 3 de maio de 2017

O GOLPE




A motocicleta devorava o asfalto com um apetite insaciável. Que máquina! Também, a BMW S1000XR tinha custado mais de 20.000 dólares, um valor impensável há apenas 6 meses atrás. Ah! Mas que maravilha! Seus 160 cavalos para pouco mais de 200 kg eram puro tesão. Era um prazer quase sexual apontá-la para a frente sem se preocupar para onde a estrada ia. Só outro motoqueiro poderia entender o significado de uma viagem de moto, pois como dizia um antigo anúncio da Honda: "você nunca vai ouvir um motoqueiro perguntar - Falta muito para chegar?".

Tudo o que necessitava estava no bagageiro da moto: passaporte, cartões de crédito, cheques de viagem, algumas mudas de roupa, Ipad Pro, câmera fotográfica, kindle entupido de livros, lanterna, reparo de pneus, canivete suiço, cadeado e uma nécessaire com artigos de higiene pessoal. E, claro, meu player de música Sony High Resolution com dois cartões de memória de 128GB recheados com as músicas sem as quais eu não podia viver.

Minhas primeiras recordações, quando tinha algo em torno de 7 anos, era de uma vida de muitas dificuldades. Meu pai trabalhava em um distribuidora de artigos escolares e minha mãe ajudava lavando roupa para os vizinhos. Nunca passamos fome, mas sempre passamos vontade. Os outros garotos sempre tinham uma mesada para comprar um lanche ou um doce quando tinham vontade e eu os invejava.

Quando completei 15 anos comecei a trabalhar. |Ninguém me sugeriu, mas como meus pais não podiam me dar as coisas que desejava, eu tive que ir à luta. Antes disso tinha feito alguns bicos nos finais de semana e nas férias, só que ainda era muito pouco para mim. Então, quando comecei a trabalhar  com carteira registrada, as coisas melhoraram sensivelmente. Comecei ajudando o contador a classificar e fazer lançamentos contábeis. Depois de um ano, embora ainda muito jovem, o contador foi paulatinamente me incumbindo de maiores responsabilidades.

Aos 18 anos comecei o curso de administração de empresas em uma universidade federal. Como sempre fui um aluno dedicado, pois acreditava que estudar seria meu passaporte para uma vida melhor, conclui o curso com ótimas notas. Quando apresentei meu diploma para o RH da empresa fui imediatamente promovido para  o departamento financeiro. Com a experiência adquirida na contabilidade foi relativamente fácil me adaptar à nova função.

Foi nessa época que começou o meu enrosco com a secretária do diretor financeiro. Judith tinha 30 anos e era uma belezura! Embora fosse bem mais velha que eu, não fazíamos um par tão estranho pois ela era mignon e tinha cara de menina.Além disso, Ju como eu a chamava, era fogosa e adorava sexo. Nada era estranho ou proibido. Para um cara que havia acabado de descobrir que a vida não se resumia a "papai e mamãe" era descoberta atrás de descoberta. E eu me lambuzando...

Um dia, quando estávamos comendo um lanche no MacDonald's pois era final de mês e a grana andava curta, ela comentou sem mais nem menos que na sala do diretor havia um cofre com milhares de dólares do caixa 2 da empresa. Como era uma multinacional alemã havia sempre a necessidade de dinheiro disponível para os executivos viajarem para a matriz ou outras filiais.
- Puxa aquele montão de dinheiro dando sopa na firma e a gente comendo Big Mac. Reclamoi Judith.
- Pois é, mas infelizmente o dinheiro não é nosso. Eu disse.
- É, mas um dia me dá na louca e eu passo a mão em toda aquela grana! Exclamou Judith, gargalhando em seguida.
Comemos o lanche e mudamos de assunto.

Mas o assunto era por demais atraente para ser deixado de lado e uma noite, quando reclamei de uma conta enorme que acabara de pagar para o mecânico consertar o câmbio de meu carro popular, o assunto voltou à baila.
- Tá vendo? Se tivéssemos passado a mão nos dólares não estaríamos contando moedas!
- Sabe que você tem razão. Mas como a gente poderia fazer a coisa?
- Já pensei em tudo: em primeiro lugar a gente tem que conseguir uma cópia da chave do cofre. Isso eu posso conseguir fácil. A gente faz que nem os caras nos filmes e tira um molde em cera de cada lado. Depois manda fazer uma cópia.
- É, mas tem que ser uma boa quantia, porque se sujar a toa não vale a pena. Além disso pode dar até cadeia.
- Que cadeia que nada! Como é caixa 2 eles não podem nem prestar queixa. Além disso a firma tem uma reputação a zelar e não vai querer seu nome no noticiário policial. Quanto ao valor a gente começa a prestar atenção e dar o golpe quando o cofre estiver cheio.

A cópia da chave foi conseguida rapidamente, sendo inclusive testada no cofre para evitar qualquer contratempo. No dia do teste havia uns 1000 dólares no cofre. Rapaz, eu fiquei tentado a pegar uns trocos para mim, mas Judith foi categórica:
- Não pegue nenhum centavo para que não desconfiem. Vamos ter paciência que o nosso dia vai chegar.

Em meados de maio ficamos sabendo que a empresa iria mandar 10 funcionários para uma feira de negócios em Tóquio no mês de setembro.
- Acho que o nosso dia está chegando meu menino...pode se preparar porque logo vão começar a chamar os doleiros para abastecer o cofre.
Não deu outra. Pelo menos uma vez por semana vinha um doleiro trazendo um pacote para o diretor financeiro. A cada vez Judith abria um grande sorriso e piscava para mim. E eu com uma grande sacola escondida na gaveta da minha mesa.

Em agosto os astros se conjuminaram para facilitar tudo. O diretor financeiro viajando, o cofre abarrotado, todo mundo voltando cedo para casa para assistir o jogo do Brasil na Copa do Mundo. Quando ficamos a sós entramos na sala do diretor, abrimos o cofre e enchemos a sacola até a boca.
- Puta que pariu! Nunca vi tanto dinheiro!
- Se controla garoto que não queremos que nada dê errado. Leve o dinheiro e esconda em um lugar seguro como combinado. Amanhã você vem para cá como se nada tivesse acontecido. E nada de fazer corpo mole: por mais que insistam você nega tudo e não sabe de nada. Quando a coisa esfriar a gente pede demissão e vai gozar a vida.
- Tá certo Ju. Já está tudo arrumado com combinado. Amanhã de manhã eu estarei aqui na primeira hora e na maior cara de pau.

Foi só depois de 3 dias, quando o diretor voltou que a coisa veio à tona. Como esperado ninguém sabia de nada. Tudo ocorrera na maior normalidade desde a viagem do diretor e ninguém pode dar qualquer tipo de informação. O diretor espumava de ódio mas não havia o que ser feito, exceto amargar o prejuízo.

No início de setembro, ao voltar para casa sozinha depois de tentar falar comigo por 3 dias sem sucesso, Judith encontrou um pacote contendo 10.000 dólares e um bilhete no qual eu pedia mil desculpas mas o dinheiro seria suficiente para apenas uma pessoa viver bem.

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